Época eleitoral e o Triplo Filtro Socrático

Em época eleitoral, as redes sociais entram em frenesi e todo mundo se alvorota. Não faltam as publicações cujo conteúdo é pura e simples chantagem do tipo “se você pretende votar em X, já pode ir desfazendo a amizade”[1], “parente que vota em partido Y, nem parente é, é conhecido”, e similares. Outros vão além e se desbordam publicando supostos atos de intolêrancia cometidos pelos militantes do adversário, numa tentativa de culpa por associação, sem sequer verificar a veracidade do conteúdo. O mais comum, no entanto, são as publicações falsas ou meias-verdades: mencionar que o candidato está envolvido em tal ou qual caso de corrupção quando sua culpa ainda não foi comprovada, citar partes do seu discurso fora do contexto de modo que soem mal, rebuscar escândalos pessoais e familiares do passado, etc. Para que as redes sejam um ambiente de discussão saudável e menos militância cega, vale aplicar às nossas publicações os “três filtros” que Sócrates propôs para a difusão de rumores: verdade, bondade e utilidade[2].

É verdadeiro?
Você já verificou se o conteúdo da informação é verdadeiro? O assassinato de reputações é uma estratégia suja e recorrente em época eleitoral e envolve uma ampla gama de táticas desonestas como ataques de bandeira falsa[3], descontextualização de falas e textos, acusações sem provas, etc. Se você não tem certeza que o conteúdo é verdadeiro, não foi atrás para verificar, não compartilhe, nem publique.

É bom?
A informação que você está apresentando sobre esta pessoa é boa? Via de regra, é melhor trabalhar no apoio ao seu candidato de preferência do que atacar o rival. O ataque ao rival só intensifica o viés de confirmação dos adversários, enquanto promover o seu candidato ajuda a chegar àquela parcela dos eleitores que ainda está indecisa. Por via das dúvidas, é melhor se abster de qualquer conteúdo de caráter acusatório ou difamatório.

É útil?
A informação que você está apresentando é útil para quem a lê? Em campanhas eleitorais isto se resume a: esta informação ajuda o leitor a tomar uma melhor decisão e votar de forma mais consciente? Coisas que podem ser facilmente descartadas são acusações de décadas atrás, intrigas familiares, preferências alheias à política. Se o conteúdo não discute propostas, planos de governo, histórico de atividade política do candidato, provavelmente é de pouca ou nenhuma utilidade.


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[1] O que na minha opinião é o cúmulo da bunda-molice. Se você realmente rejeita uma pessoa pelas suas convicções políticas ao ponto de querer desfazer a amizade ou relação com ela, deveria pelo menos ter as bolas de terminar você mesmo a relação de maneira franca, direta e de preferência cara-a-cara, não publicando indiretas nas redes sociais.
[2] Ironicamente, o texto dos “três filtros”, “três testes” ou “três peneiras” não passa o primeiro filtro, pois é apócrifo e não consta em nenhuma das obras conservadas do filósofo. As fontes mais antigas que mencionam o texto são A Course in Citizenship (1914) de Ella Lyman Cabot e The Children’s Story Garden (1920) editado por um grupo da Filadélfia, sem um autor definido.
[3] Na política, consiste em cometer um ato odiável e “assiná-lo” como se fosse o opositor. O exemplo mais óbvio aconteceu recentemente em minha cidade natal, onde “foram encontrados” cartazes com suásticas e os dizeres “Morte à Negrada – Bolsonaro Presidente”, imediatamente compartilhado ad nauseam por portais de notícia da esquerda. Curiosamente as únicas fotos existentes dos cartazes só se encontram nestes portais, sem qualquer pronunciamento das autoridades ou da polícia, e mostram duas cópias intactas jamais afixadas a superfície alguma. Ao que tudo indica, somente os “jornalistas investigativos” dos portais tiveram acesso ao material e ninguém jamais os viu em qualquer outro lugar fora da sua sala de redação. Outro caso, mais elaborado, foi um texto de conteúdo anti-cristão supostamente publicado pela vice do Haddad, Manuela d’Ávila.

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