Política sem peito

Nas sociedades clássicas, as castas representam a divisão do corpo humano: as castas governantes representam a cabeça – sede do intelecto, as castas militares e eclesiásticas representem o peito – sede das virtudes, as castas servis representam o ventre e os membros – a nossa relação com o mundo material e as necessidades econômicas. A cabeça dedica-se a governar, o peito a guiar a moralidade, os membros e o ventre a suprir o corpo com seu alimento (são, por extensão, as classes dedicadas ao trabalho braçal).

É interessante que com a queda do sistema de castas e a ascensão das classes médias no mundo moderno tenhamos visto todo o setor mediador entre os membros e a cabeça (o peito) ser simplesmente excluído da política. Com a secularização e desmilitarização das sociedades, houve um correspondente abandono de qualquer tentativa de moralização da vida pública. Se antes era função exclusiva da Igreja ser a guia moral do setor público, hoje nenhuma instituição cumpre esta função no âmbito público para além das formalidades dos controles democráticos do poder (limitam, mas não moralizam).

Por isto certos pensadores como C. S. Lewis afirmavam que vivemos na sociedade dos “homens sem peito”: decisões são tomadas em função do prazer que geram (a satisfação do ventre) e da sua racionalidade (o critério da cabeça), a moralidade da decisão sendo irrelevante. Há homens racionais e homens viscerais, mas não homens cordiais. Quando tudo é decidido em função da utilidade e viabilidade prática, qualquer imoralidade é permitida a quem tem o poder de realizá-la porque este é o nosso critério de análise: Isso me beneficia? Serei punido por isso? Qual a chance de ser descoberto? Ninguém ousa fazer a mais reacionária das perguntas: “Isso é certo?”


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