O que eu senti ao mudar para o Software Livre

Como boa parte dos brasileiros, meu primeiro contato com softwares livres e de código aberto foi no laboratório de informática da escola pública e nos cursinhos de informática do bairro, usando sistema operacional Debian[1] ou Kurumin[2] e jogando SuperTux[3]. Uma consequência desse primeiro contato é que fiquei com aquela impressão, também mantida por muitas pessoas, de que os softwares livres e de código aberto, principalmente os sistemas operacionais Linux, eram alternativas gratuitas e de baixa qualidade aos softwares proprietários. Mesmo há 10 anos atrás esta percepção já era equívoca, e desde então a qualidade dos softwares livres e de código aberto tem melhorado ainda mais e podemos afirmar, hoje, que este tipo de software supera em muitos aspectos os softwares proprietários até mesmo onde antes ele era percebido como deficiente: funcionalidades, qualidade técnica e suporte. O boom do Android[4] nos dispositivos móveis ajudou nesse processo de melhora da percepção pública frente aos softwares de código aberto.

Além de uma boa qualidade e funcionalidade, os softwares livres também são mais flexíveis no sentido de que uma empresa pode customizá-los à vontade, e para isso conta com uma oferta muito maior de desenvolvedores do que a disponível para um software proprietário. A manutenção e o suporte também são facilitados por este fator. O custo também, é muito menor: o software livre, na maioria dos casos, está disponível para ser baixado e instalado de graça em quantas máquinas você quiser, sem necessidade de se preocupar com licenças. Todos os custos relacionados a ele vem de coisas que realmente implicam uma vantagem competitiva ou um ganho de produtividade, como customizações e suporte. Pelo fato do suporte ser uma das principais fontes de renda das empresas de software livre, o seu suporte também tende a ser melhor em comparação ao software proprietário cuja principal fonte de renda é a venda de novas licenças. Todos estes fatores, somados à segurança, tem levado o software livre a ganhar muito espaço no mercado de software. Alguns casos notórios de sucesso são o Apache[5], Krita[6], Moodle[7], MySQL[8] e WordPress[9]. Praticamente todos os websites que você visita, incluindo este, estão montados sobre uma arquitetura denominada LAMP[10] e que está baseada em software livre. Uma das poucas exceções a essa tendência é o mercado de sistemas operacionais para computadores pessoais, devido ao fato de que os sistemas operacionais proprietários (Windows e MacOS) já vem pré-instalados nas máquinas vendidas em lojas de varejo, normalmente junto com um monte de bloatware[11] do fabricante.

Pessoalmente sempre usei o sistema operacional Windows com software proprietário, mas recentemente senti que o desempenho da minha máquina estava deixando a desejar. Com 4GB de RAM, mesmo sem usar aplicações que demandam muito processamento ou capacidade gráfica, o computador travava muito, ficava lento, etc. 4GB de RAM não é muito, mas deve ser o suficiente para um usuário regular que só usa o navegador, o editor de texto e um tocador de música. Busquei todos os métodos possíveis para eliminar processos rodando em segundo plano, otimizar as configurações do sistema operacional, alocar mais recursos, etc., mas ainda assim o principal fator consumindo minha RAM era, pasme, o próprio sistema operacional. Levando isso em consideração, resolvi testar uma distribuição Linux e escolhi Ubuntu que tem uma interface amigável e é bastante popular em computadores pessoais. Como boa parte dos softwares que eu usava no Windows não estão disponíveis no Linux, tive de adaptar minhas atividades usando outros softwares livres de código aberto, disponíveis no Centro de Software do Ubuntu ou instalando diretamente do terminal de comandos. Este artigo, portanto, é focado na experiência do usuário comum. Depois de um mês usando o software livre, eis como eu me sinto:

1. Seguro
Primeiramente, senti-me mais seguro. Apesar de que existem vírus desenvolvidos para infectar sistemas Linux, este sistema operacional normalmente não é um alvo de alto valor para hackers devido à pouca quantidade de usuários atualmente e a diversidade de distribuições. Mais de 90% dos sistemas operacionais instalados em computadores pessoais são Windows, logo faz sentido que quase todos os malwares tenham como alvo estes sistemas operacionais para aumentar suas chances de sucesso. Esta é uma vantagem que tenderá a desaparecer no futuro conforme as distribuições Linux ganhem popularidade, mas hoje ainda é um ponto forte deste sistema. Porém, além disso, um usuário do Ubuntu normalmente vem com menos permissões do que um usuário do Windows. Para instalar um software, por exemplo, sempre é necessário que você autentique com a sua senha, o que impede que malwares sejam instalados em segundo plano no seu computador sem o seu conhecimento, o que é um problema crônico no Windows. Você terá de continuar usando firewall e anti-vírus, mas estará bem menos preocupado com atualizações e varreduras de anti-vírus do que o normal.

2. Produtivo
Notei que, diferente do Windows, o Ubuntu é um sistema operacional que não precisa de babá. Ele não fica tirando sua atenção do trabalho o tempo todo com alertas sobre atualizações de software, componentes e drivers e também não exige que você faça com frequência operações que para usuários de Windows são rotineiras como reinicialização da máquina, desfragmentação de disco, gerenciamento de tarefas para terminar aquele programinha que está travando, etc. O Ubuntu normalmente atualiza todos os componentes com o clicar de um botão, e mesmo estas atualizações quase nunca exigem que você reinicie o computador.

Outro dos maiores problemas com software proprietário é o uso de formatos proprietários. Ou seja, arquivos que são criados em um formato que só pode ser aberto, editado ou visualizado com software daquela empresa que criou o formato. Este é um problema com formatos como CDR (CorelDraw, da Corel), PSD (Photoshop, da Adobe) e WMA (da Microsoft), mas cada vez mais empresas e usuários estão optando por formatos abertos que permitem a comunicação entre softwares de diferentes empresas e a compatibilidade com diversas ferramentas. Esta demanda é o que tem levado grandes empresas do setor a “abrir” os seus formatos, como é o caso do PDF da Adobe e dos formatos do Pacote Office da Microsoft (DOC, XLS, PPT, etc.). Com o software livre, isto nunca foi uma preocupação: os seus formatos são abertos por padrão. Isto permite que eu trabalhe meus arquivos sem me preocupar se a pessoa que o receberá vai conseguir abrir ou não, independente do dispositivo, sistema operacional ou aplicação que ela estiver usando.

O desempenho do Ubuntu também é muito melhor que o de um Windows 10, já que este último em geral usa uns 60% a mais de RAM antes mesmo de você abrir qualquer aplicação. Este 60% de RAM a menos que o Ubuntu usa é memória que sobra para você rodar mais aplicações sem travar ou desacelerar o seu computador.  Tudo isto implica um downtime muito menor do que no Windows, ou seja, mais tempo para você investir no que realmente interessa e menos tempo fazendo manutenção ou destravando o sistema.

3. Tranquilo
Convenhamos, a maioria de nós só tem uma licença Windows porque ele vem pré-instalado na máquina quando compramos ela na loja. Quando chega a hora de pagar para atualizar o sistema operacional ou o Office dá aquele aperto no coração (e no bolso) e muitos preferem simplesmente deixar tudo desatualizado ou apelar para a pirataria pura e simples. Com o Ubuntu e o software livre você não terá esta preocupação, pois a maior parte da oferta de software é totalmente gratuita para instalar e usar, porque foi feita para ser assim, e você pode usar tudo com a consciência tranquila de que não está roubando a propriedade digital de empresa nenhuma. Seu software é livre, gratuito e legal.

Trocar de sistema operacional e de softwares proprietários para softwares livres não é um mar de rosas. A transição tem sua curva de aprendizado e de cara você notará duas dificuldades. A primeira é que certas coisas em Ubuntu você precisará fazer através de linhas de comando em um terminal. Não é nada de outro mundo, e você encontra a maioria dos códigos que precisa na internet, é só copiar, colar e executar, mas é uma mecânica com a qual a maioria das pessoas não está acostumada e assusta quem tem menos conhecimento de informática. A segunda é que alguns softwares com os quais você está acostumado não estarão disponíveis e você precisará buscar softwares alternativos para fazer a mesma coisa, e aprender a usá-los do zero. Há excelentes opções gratuitas e de código aberto para praticamente tudo o que é possível fazer com um computador, mas se você depende de um software por questões contratuais ou de formatos proprietários exigidos pelos seus clientes, é melhor pensar duas vezes. Também não recomendo a mudança se você for um hardcore gamer, pois a maioria dos jogos são disponibilizados somente para Windows[12].

Veredito

No geral, estou muito satisfeito de ter migrado para o Ubuntu e estar usando softwares livres em vez dos proprietários. Sinto que o desempenho do meu computador melhorou, produzo mais, estresso-me menos com alertas, notificações, atualizações e segurança, e para as atividades do dia-a-dia ele não representa nenhuma dificuldade adicional. Para as poucas coisas que preciso utilizar linhas de comandos, que qualquer usuário regular pode dispensar, o ganho em desempenho e economia de dinheiro compensa totalmente o esforço. Então, a menos que você realmente precise trabalhar com os formatos proprietários do AutoCAD, Photoshop e Camtasia, você não se arrependerá de migrar de um Windows para um Ubuntu e usar softwares livres e de código aberto para as suas atividades diárias.


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[1] Lançada há 25 anos, Debian é a distribuição mais antiga de Linux que ainda recebe suporte, manutenção e atualização.
[2] Lançada em 2008, o Kurumin era uma distribuição Linux 100% brasileira desenvolvida pelo Guia do Hardware. Foi descontinuada em 2009.
[3] SuperTux era um jogo de plataforma estrelando o protagonista Tux, o simpático pingüim mascote da Linux.
[4] Android começou como um sistema operacional, baseado em Linux e de código aberto, mas não é considerado “livre” pois seu desenvolvimento é praticamente monopolizado pela Google em vez de ser aberto à comunidade, além de vir com uma série de restrições ao usuário e bloatwares instalados.
[5] Apache é o servidor HTTP mais utilizado para hospedar websites em todo o mundo, e detém pouco mais de 50% de todo este mercado.
[6] Krita é uma poderosa ferramenta de ilustração e pintura digital. Foi lançada em 2015 e hoje já é uma favorita entre os artistas digitais.
[7] Moodle é um sistema gerenciador de aprendizagem (Learning Management System) muito utilizado por faculdades públicas e privadas para oferecer cursos online.
[8] MySQL é um gerenciador de bancos de dados relacionais de código aberto, apesar de pertencer à Oracle.
[9] WordPress é um sistema gerenciador de conteúdo (Content Management System) e normalmente é usado para criar sites e blogs. Segundo o seu próprio site, é a ferramenta com a qual 31% de todos os websites do mundo foram construídos. Este site, por exemplo, foi feito no WordPress.
[10] LAMP é um acrônimo para Linux, Apache, MySQL e PHP, o conjunto de softwares livres utilizados para hospedar a maioria das páginas web. Linux é o sistema operacional do servidor, Apache é o software servidor de HTTP, MySQL é o gerenciador de banco de dados do site e PHP é a linguagem de programação usada na maioria das páginas web, incluindo as do WordPress.
[11] Bloatware é um termo que designa software proprietário que vem pré-instalado no dispositivo e cuja utilidade ou necessidade é duvidosa. Se você tem um computador Windows, provavelmente lembra de, ao ligá-lo pela primeira vez, ver um monte de aplicações do fabricante ou de terceiros instaladas lá. No Windows 10 há uma legião deles, como os agregadores do Bing com dados financeiros, receitas, “notícias”, etc. Já nos dispositivos Android, a maioria do bloatware é software proprietário da Google (Maps, Talk, YouTube, Play) e que não pode ser desinstalado a menos que você obtenha acesso raíz (root) ao aparelho, o que frequentemente invalida a garantia.
[12] Na verdade a Steam, atualmente a maior plataforma de distribuição digital de jogos, tem muitas opções para Linux. A Valve, empresa que mantém a Steam, desenvolveu até mesmo o seu próprio sistema operacional otimizado para jogos, o SteamOS, baseado em um distribuição Linux. No entanto, ainda não faço esta recomendação porque somente 3% dos produtos disponíveis na Steam Store estão disponíveis para Linux.

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