Crenças Limitantes de Quem Vive Quebrado

Sei que o termo “crenças limitantes”  imediatamente faz o detector de bosta das pessoas disparar, devido ao seu abuso por palestrantes motivacionais, o mercado da auto-ajuda e aquele seu amigo que entrou na pirâmide do momento. Mas eu juro para você que ele será usado aqui de forma séria. Meu objetivo não é meter você neste ou naquele esquema para enriquecer rapidão. O objetivo deste artigo é desfazer alguns mitos e auto-ilusões que boa parte das pessoas acreditam, especialmente as que tem dificuldades de administrar o próprio dinheiro.

Não vou mentir para você: não sou rico, não estou surfando na crista da onda das criptomoedas, nem estou vivendo de renda. Sou apenas um cara com um bom salário, livre de dívidas, com uma reserva de emergência para os próximos 6 meses e alguns poucos investimentos em renda fixa. Certamente não serei o próximo Warren Buffet, mas normalmente alcanço aquilo que me proponho fazer e poucas vezes me vi em situação de aperto por causa de dinheiro, e isso desde que era um estagiário ganhando um salário mínimo lá em 2010. O que me levou a escrever este artigo foi a quantidade de vezes que eu escutei as frases a seguir da boca de amigos e familiares, que transparecem a falta de conhecimento financeiro de muitas pessoas que eu conheço. Isto me pareceu preocupante e escrever este artigo foi a melhor maneira que eu encontrei para compartilhar com este tipo de pessoa o pouco de conhecimento que eu tenho.

Como a exceção é a regra do burro e sempre tem alguém para contestar tudo que se trata de responsabilidade individual, antes de continuar quero esclarecer que o artigo parte da premissa que você é adulto, não é morador de rua, não tem problemas com drogas ou distúrbios psiquiátricos, não está prometido de morte nem tem dívida com a máfia italiana ou traficantes cariocas. Ou seja, é um brasileiro normal.

Sem mais delongas, vamos às crenças limitantes:

1. “Não consigo poupar porque não me sobra nada no fim do mês”

Esta é uma crença limitante porque traz a premissa embutida de que o controle das suas finanças não está nas suas mãos, e sim em circunstâncias externas alheias ao seu controle, como as contas a pagar ou quanto seu patrão paga. Em suma, é uma crença que coloca a pessoa sempre em uma zona de conforto ao isentá-la da responsabilidade sobre sua própria vida financeira. Mas a verdade é que, como tudo na vida, o segredo para assumir o controle das suas finanças é focar no que você controla e admitir que a responsabilidade sobre a sua vida financeira é 100% sua. Não dos seus pais, não do governo, não do patrão, não da situação da economia nacional: sua. Você não controla seu passado familiar, a economia ou a política nacional, mas pode controlar quanto você gasta e quanto você poupa.

A primeira coisa que devemos fazer para acabar com esta crença é entender o seguinte: você não poupa o que sobra depois de gastar, você gasta o que sobra depois de poupar. É o famoso “pague a si mesmo primeiro”. A pessoa mais importante na sua lista de credores e fornecedores é você mesmo, afinal é você quem fornece a si mesmo a força de trabalho necessária para gerar a sua renda. Se você não garante primeiro a sua integridade física, mental e financeira, você nunca chegará a lugar nenhum. A ideia não é evadir o pagamento das suas contas, mas sim redefinir a ordem de prioridade em que você as paga:

1 – Você (poupança).
2- Seus fornecedores de bens e serviços essenciais (alimentação, habitação, saúde, transporte).
3 – Seus credores.
4 – Gastos livres, compras supérfluas, diversão, etc.

Então, antes de qualquer coisa, você precisa fazer um orçamento indicando e categorizando os seus ganhos e gastos e definindo antecipadamente quanto vai poupar por mês. Não é necessário virar um Zé Continha e anotar até a bala de menta no seu orçamento, mas sim ter uma noção geral do quanto você gasta com cada categoria: aluguel, transporte, comida, etc. Com base nisso você deve saber quais despesas pagará mensalmente e para quais você precisa reservar uma quantia semanal ou diária. Não importa se a balinha de menta custa R$0,50 ou R$0,25, o que importa é que você poupe uma parte da sua renda e se mantenha dentro do seu limite de gasto diário, semanal e mensal. Por pouco que você ganhe, você deve especificar uma porcentagem para a poupança. O recomendado é no mínimo 10%, mas é possível economizar 20% ou 30% conforme você vai aprendendo a administrar suas finanças.

2. “Não posso poupar agora porque estou endividado”

Corolário do ponto anterior, a regra do pagar a si mesmo primeiro se aplica inclusive quando você tem uma dívida pendente. Se a dívida é grande, a primeira coisa que você tem de fazer é renegociar o seu pagamento em parcelas que você tenha condições de pagar. Lembre-se que a prioridade do credor é receber o dinheiro dele e portanto para ele tampouco é vantagem impor condições absurdas que você não terá condições de cumprir, o que levaria à inadimplência. Dependendo do que você ganha e dos seus gastos, sua capacidade de endividamento irá de 10% a 30% do que você ganha, portanto tenha isso em conta ao negociar as parcelas da sua dívida. Uma vez que você chegou a um acordo e parcelou a dívida em valores que você pode pagar, você estará poupando para si e pagando a dívida ao mesmo tempo. Ao final do prazo acordado, você fará o que antes parecia impossível: estará com a dívida paga e um saldo positivo na conta. Paga a dívida e com saldo na conta, você pode manter uma reserva de emergência sempre à mão. Isso ajudará você a se preparar para futuros gastos imprevistos e, aliado ao controle inteligente dos gastos, protegerá você de um novo endividamento.

Agora, pelo contrário, se você não poupar, você tenderá a estar sempre em situação de dificuldade, sempre endividado, sempre vulnerável às surpresas. Uma pessoa que vive endividada não é uma pessoa livre, pois trabalha o tempo todo para gerar dinheiro para outra pessoa em vez de gerar dinheiro para si e não obtém nunca uma independência. A poupança ajudará você a retomar o controle da sua vida e ter mais segurança e tranquilidade para enfrentar as adversidades da vida, e também ajudará você a ser mais livre e independente de outras pessoas, o que termina refletindo também na sua auto-estima. Renegocie, parcele e pague religiosamente a dívida, mas não comprometa sua poupança por isso e, acima de tudo, jamais peça um empréstimo para pagar uma dívida, pois isto seria acumular uma dívida em cima da outra e geraria um efeito “bola de neve” que pode comprometer ainda mais sua situação financeira. A regra é: não se contrai uma dívida para pagar outra dívida. O erro mais comum nesse sentido é pagar dívidas no cartão de crédito, que será abordado no ponto seguinte.

3. “Tudo o que eu queria era um cartão de crédito sem limite”

Muita gente costuma associar o cartão de crédito à idéia de que ele é dinheiro de plástico, o que não é exatamente verdade. Como o próprio nome implica, este cartão dá a você acesso a crédito, ou seja, empréstimos que você precisa pagar com taxas e juros depois. Por isso usá-lo para pagar dívidas é uma má ideia: se você não tem condições de pagar uma dívida, tampouco terá condições de pagar a mesma dívida mais taxas de transação, mais anuidade do cartão, mais juros sobre o crédito. Em casos assim, o cartão de crédito é mais uma dívida de plástico que você carrega no bolso e vai crescendo cada vez mais. Use o cartão de crédito somente quando você realmente tem a intenção de financiar uma compra programada de valor maior e que precisa de pagamento parcelado. Este tipo de compra precisa ser planejado com antecedência, não pode ser feita por impulso. A menos que tenha uma compra desse tipo planejada e programada, tenha a capacidade de pagar as parcelas em dia mais taxas, juros e anuidade, você pode até mesmo repensar a necessidade de ter um cartão de crédito.

Agora, a situação é diferente com o cartão de débito, onde os pagamentos que você realiza são debitados diretamente do saldo bancário que você realmente tem. Eu recomendo usá-lo com muito mais frequência do que o cartão de crédito, e até mesmo dispensar o cartão de crédito se as compras que você faz habitualmente podem ser feitas com cartão de débito. Você verá o saldo da sua conta diminuindo, o que lhe dá consciência de quanto você está gastando e quanto mais você pode gastar, diferente do cartão de crédito que dá a ilusão de que estão dando dinheiro para você gastar além do seu saldo. Então lembre-se: um cartão de crédito sem limite não é um sonho, é um pesadelo. Longe de representar uma fonte infinita de dinheiro, um cartão desses seria uma fonte infinita de dívidas.

4. “Não é pirâmide, é marketing multinível”

Este artigo não foca em investimentos, e sim em poupança. Quem está em dificuldades financeiras primeiramente precisa pagar suas dívidas, chegar no ponto de equilíbrio e montar uma reserva de emergência para só então começar a avaliar a possibilidade de investir. Com o país em crise financeira, tanta gente endividada e desempregada, é fácil cair no canto da sereia dos investimentos perfeitos, “sem risco”, “com retorno garantido”, “demita o seu chefe”, etc. Nos momentos de vulnerabilidade é que os vigaristas se aproveitam para vender soluções mágicas para os incautos e desesperados, portanto se você está numa situação precária, aí sim é que você tem que evitar decisões arriscadas e ser extremamente cauteloso e conservador com o seu dinheiro. Esqueça o apelo publicitário ao “empreendedor dentro de você” e, sobretudo, blinde sua mente do medo de “perder uma grande oportunidade”: investimento bom não tem hora para entrar.

Como disse no início do artigo, se a ideia é assumir o controle sobre as suas finanças, você deve focar os seus esforços sobre coisas que você controla. Você controla: quanto você poupa, com que frequência você poupa, por quanto tempo você poupa, quanto você gasta, quando você gasta, com quê você gasta. Você não controla: os preços do que quer que seja, os resultados de qualquer evento onde você não intervêm, o rendimento de investimentos variáveis[1], a “hora certa” de investir em tal ou qual coisa. Sobretudo e principalmente, não tente “aprender a investir como os grandes investidores”. Então, de cara já podemos fazer uma lista de como NÃO investir o seu suado dinheirinho:

  • Apostas (Bet365 e plataformas similares, bolão, rinha de galo)
  • Jogos de Azar (PokerStars e plataformas similares, jogo do bicho, bingo)
  • Especulação financeira (plataformas de ForEx e trading, compra e venda de moedas e criptomoedas)[2]
  • Pirâmides financeiras e “marketing multinível”[3]

Note que não estou fazendo um julgamento moral sobre estas opções, simplesmente descartando elas porque o risco é alto demais para quem, além de ser principiante e não ter conhecimento, está mais vulnerável financeiramente e não pode assumir os seus altos riscos. Excetuando as pirâmides, que são fraudulentas por definição e cujo único objetivo é arrancar dinheiro de trouxa, todas as alternativas listadas partem da premissa de que você ganha se acertar uma previsão: o resultado de um jogo, se o preço de um ativo vai subir ou vai descer, etc. Como você não controla estes fatores, nem tem o dom da premonição, estas são péssimas opções para quem não está em condição de assumir riscos. Todas são variações de apostas, ou seja, especulação. No longo prazo, só quem lucra nestes mercados são os intermediários. Como regra geral, evite qualquer coisa que prometa enriquecimento rápido ou que prometa renda sem esforço significativo. Os vigaristas investem forte nas táticas de persuasão e usarão uma série de estratagemas psicológicos para pressionar você a entrar nos seus esquemas, como por exemplo:

  • Urgência: Se você não aproveitar a oportunidade agora, vai perder o timing para um alto retorno. Depois vai ficar chupando dedo.
  • Retorno rápido ou muito alto: Você só vai investir R$100 para ganhar R$10.000, vai perder uma barbada dessas? Em menos de uma semana você recupera.
  • Exclusividade: Esta oportunidade é só para pessoas especiais da minha rede de contatos, ou essa é uma oportunidade nova e inédita neste país ou neste mercado.
  • Consenso: Um milhão de pessoas já fazem parte desta rede. Você acha que se fosse uma enganação, tanta gente estaria no negócio?
  • Case de Sucesso[4]: O fulano se deu bem, veja o resultado com os seus próprios olhos. Que importa se os especialistas dizem o contrário?
  • Desafio: Quem diz para você não entrar no negócio, é porque tem inveja de você, não quer ver o seu sucesso, não acredita no seu potencial. Prove que eles estão errados!

Todas estas táticas são mais velhas que andar pra frente e são usadas há eras por cartomantes, homeopatas, aplicadores do golpe das tampinhas, empreendedores de palco[5], socialistas e outros charlatões. Nestas horas, a pressão emocional e psicológica é forte, e se você se recusar a entrar no esquema será taxado de conformista, conservador, retrógrado, quadrado, cabeça-dura, etc. Mantenha a frieza: é melhor ser um cabeça-dura retrógrado com segurança financeira do que ser um cara arrojado e falido, devendo até as calças. É melhor você virar revendedor de qualquer coisa[6], fazer freela ou conseguir um emprego meia-boca do que jogar dinheiro fora comprando terreno no céu. Não perder é melhor do que ganhar.

Síntese disso tudo que eu falei aí

1 – Você é o único responsável pela sua vida financeira.
Você pode colocar a culpa da sua situação em quem quiser, mas isso não vai pagar suas contas nem garantir o seu futuro.

2 – Foque no que você controla.
Não fique caçando “oportunidades” nem perdendo a cabeça por fatores alheios ao seu controle: rendimento, previsão de mercado, timing, etc.

3 – Gaste o que sobra depois de poupar.
Não poupe o que sobra depois de gastar. Assuma o controle das suas finanças elaborando um orçamento e dedicando uma porcentagem fixa da sua renda mensal para a poupança.

4 – Não contraia uma dívida para pagar outra dívida.
Pegar empréstimo (crédito) para pagar uma dívida é uma maneira infalível de viver endividado para sempre.

5 – Cartão de crédito é dívida de plástico.
Não é dinheiro grátis para você gastar: tem juros, taxas e anuidade. No fim das contas você sempre vai pagar mais usando o cartão de crédito do que pagando com dinheiro vivo ou no débito. Só use crédito para compras que você já tem programadas e planejadas, e se não tiver outra opção.

6 – Investimento bom não tem hora para entrar.
Não tente acertar timing nem fique com medo de perder uma grande oportunidade por não entrar no início. Investimento bom continua rendendo anos ou até décadas depois do lançamento, então não precisa ter pressa para entrar de cara.

7 – Não perder é melhor do que ganhar.
É possível ganhar várias apostas pequenas no cassino e na última perder tudo. O mesmo pode acontecer com “investimentos” mágicos. Quando se trata de finanças, não se foder é a sua prioridade: primeiro você se assegura de que não vai virar mendigo, depois você brinca de investidor.


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[1] Exemplos: Cotação de moedas estrangeiras, preços de imóveis, commodities e ações da bolsa, resultados de jogos, aumento ou diminuição de oferta e demanda de uma commodity, o timing perfeito de um investimento, se uma empresa “disruptiva” vai decolar ou não.

[2] Algumas plataformas também oferecem opções de investimentos mais sólidas, como a compra de ações, mas a diferença entre um e outro nem sempre é clara, especialmente para quem é principiante. Na dúvida, evite. Primeiro reestruture suas finanças, crie uma reserva de emergência, aprenda sobre os investimentos e só então comece.

[3] Frequentemente as pirâmides são disfarçadas de “Marketing Multinível” (MMN). Como para um principiante é difícil diferenciar uma da outra, minha dica é: não arrisque e evite qualquer uma delas. Outro sinal de alerta é quando um produto ou serviço corriqueiro requer de métodos mirabolantes para você entrar ou executar o negócio. Por exemplo, porque uma marca de café precisaria de afiliados, cursos, reuniões e palestras quando ela pode simplesmente colocar o seu produto para vender no varejo? Ou porque um serviço de VoIP precisaria de um sistema de membresia hierarquizado quando poderia simplesemente vender diretamente de um website? Se parece complicado, se você não entende, precisa pagar um curso pra entender e entrar, ou ir a uma série de reuniões motivacionais, não entre. Isso tudo é tempo que você poderia estar investindo em um curso gratuito de qualificação, distribuindo currículos ou fazendo freelas.

[4] Lembre-se que até no golpe das tampinhas existem “cases de sucesso”, os falsos ganhadores que fazem parte do esquema e cujo objetivo é convencer a vítima a apostar. Deixar alguém fazer pequenos ganhos para motivá-la a insistir apostando até perder tudo é um estratagema usado há milênios em diversos contextos, por generais da Antiga China até os piramideiros, passando pelos cassinos. Assim como há “cases de sucesso”, pare para pensar quantos dos que entram no negócio viram “cases de fracasso”… existe uma coisa chamada viés do sobrevivente, e podemos muito bem estar lidando com alguém que simplesmente teve a sorte de sobreviver, enquanto outras tantas faliram fazendo exatamente a mesma coisa. Ou seja, mesmo que o “case de sucesso” seja legítimo, ele pode ser uma exceção à regra e você não pode pautar suas decisões sobre exceções.

[5] Empreendedores que vivem de vender empreendedorismo, dando palestras motivacionais, cursos inúteis, etc., sem jamais abordar as partes menos chiques de tocar um negócio tipo como  emitir faturas, como pagar os seus impostos, como administrar pessoal, como lidar com fornecedores, etc.

[6] Empresas de revenda por catálogo, especializadas ou não, existem há décadas e oferecem uma alternativa sólida e honesta que já ajudou muita gente a sair do aperto ou simplesmente complementar a renda familiar. Sua reputação, entretanto, vem sendo manchando pelos piramideiros. A diferença reside em que nestas empresas, você é remunerado de acordo com o quanto você vende em vez de por quantos otários você recruta, e os seus produtos são adquiridos por um preço razoável, somente abaixo da média do mercado o suficiente para que o revendedor obtenha lucro. Você compra o produto, revende o produto e obtém parte do lucro: simples, fácil e direto, sem esquemas mirabolantes, palestras, cursos e o escambau.

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