Como é viver na Colômbia? Introdução

Como já mencionei em uma publicação anterior, moro na Colômbia há 4 anos. Naquele artigo dei dicas básicas para quem está considerando imigrar para a Colômbia, e agora decidi escrever uma série de artigos mais completa sobre como é viver por aqui.

O país
A Colômbia é o país sul-americano mais populoso depois do Brasil, com 50 milhões de habitantes. A língua predominante é o espanhol e o bilinguismo é incomum. É um país extremamente diverso em climas, ecossistemas, flora, fauna, etnias e culturas regionais. É um dos poucos países sul-americanos banhado tanto pelo Oceano Pacífico quanto pelo Oceano Atlântico, uma vantagem que o país aproveita amplamente no seu comércio internacional. O país é reconhecido internacionalmente pelos seus principais produtos de exportação como café, flores e esmeraldas, bem como pela sua música popular que inclui a salsa, o vallenato e o reggaeton. O país também exporta mão-de-obra qualificada nas áreas de ciência, engenharia e medicina, áreas que formam bons profissionais mas não costumam pagar tão bem por aqui. Como a maioria dos países da região, a corrupção também é um problema endêmico.

Diferente do Brasil, a Colômbia não é uma república federativa e sim um Estado unitário, ou seja, uma parte maior das suas decisões políticas são tomadas a nível nacional em vez de regional. O território é dividido administrativamente em departamentos, cada um com sua capital departamental, e um distrito capital nacional que é Bogotá. O país é lindo e seu povo é muito amável. Quem vem visitar, não se arrepende: o turismo nacional é ridiculamente barato em comparação ao Brasil e a oferta é muito variada, pois o país tem praias e até ilhas no Caribe, sítios arqueológicos com cidades perdidas, turismo de aventura e cidadezinhas com arquitetura colonial. Para quem vem morar também é bastante acolhedor, embora a adaptação sempre seja difícil.

História
Antes da colonização, boa parte do seu território era dominado pelos muiscas, um povo civilizado que vivia em uma sociedade hierarquizada e que ficou historicamente conhecido pela sua fina ourivesaria. O mito do El Dorado está relacionado a este povo, mais precisamente à lagoa de Guatavita que fica próxima à Bogotá. Uma grande parte do tesouro muisca está em exibição no Museu do Ouro, em Bogotá. Outra parte, o tesouro quimbaia, está na Espanha. Outra parte provavelmente está no fundo do Oceano Atlântico junto aos restos de embarcações da era colonial, aguardando ser redescoberta. Uma parte muito pequena dessa antiga civilização ainda sobrevive nas populações indígenas de Bosa e Suba, em Bogotá. Outra civilização pré-colombiana importante foi a tairona, que legou ao país a Cidade Perdida, uma importante obra de arquitetura pré-colombiana e hoje ponto turístico.

Desde o princípio da sua colonização, a Colômbia ganhou ares míticos devido à lenda de El Dorado. Segundo relatos que os espanhóis escutaram de vários nativos, havia no coração daquele continente inexplorado um importante chefe político que se banhava em uma lagoa de ouro, ou cheia de ouro, ou com o corpo coberto de ouro, ou qualquer coisa assim. O importante é que tinha ouro. De fato, o ouro era muito importante para as culturas nativas, tanto no aspecto econômico quanto ritual, mas a quantidade de ouro imaginada pelos conquistadores era exagerada. Quando o ouro começou a ser descoberto, os espanhois enviaram grandes carregamentos para a Espanha, uma parte dos quais foi perdida por ataques de piratas e corsários, indo parar nos cofres ingleses, franceses, holandeses ou no fundo do mar.  Em 2015, um galeão da época colonial (Galeón San José) foi encontrado no fundo do mar pelo Instituto Colombiano de Antropología e Historia (ICAH) e pela Marinha colombiana. Os seus restos ainda estão sendo estudados pela Universidade Nacional da Colômbia, e há grande possibilidade de que se encontre um importante tesouro, não só em ouro e prata, mas em artefatos históricos. Com El Dorado ou sem El Dorado, o território colombiano foi incorporado ao Império Espanhol durante a sua época colonial, e desempenhou um papel fundamental na defesa da América Espanhola e no comércio transatlântico. Uma das suas cidades mais importantes, Cartagena de Indias, é apelidada “a heróica” pelo seu papel na defesa da América Espanhola contra piratas, corsários e invasores estrangeiras, como o  a invasão inglesa de 1741. Devido à sua posição estratégica, o território também adquiriu grande importância dentro do Vice-Reino do Peru, ganhando uma Real Audiência própria. Durante o século XVIII a região passaria a ter ainda mais autonomia constituindo-se no Vice-Reino da Nova Granada, entidade que também incluía os atuais vizinhos Equador, Panamá e Venezuela.

No início do século XIX o país obteve sua independência da Espanha e converteu-se em República. Como em outros países hispanoamericanos recém emancipados, houve um forte conflito entre apoiadores de um governo unitário e os defensores de uma abordagem federalista. Por muito tempo, a política do país seria dominada pelo bipartidarismo com os conservadores de um lado e os liberais do outro. Durante esta confusão, Equador, Panamá e Venezuela aproveitaram a oportunidade para obter sua independência de Nova Granada. Essa polarização política resultou em várias guerras civis, como a Guerra dos Mil Dias, uma das mais sangrentas da história do país e do continente americano. Conflitos políticos continuariam a assolar o país durante os séculos XIX e XX. A partir dos anos 40 a esquerda marxista-leninista começou a ganhar força, paulatinamente tomando o espaço dos liberais de esquerda. Com o assassinato do candidato presidencial Jorge Eliecer Gaitán em 1948, desatou-se uma nova onda de violência e radicalização política no país, com a esquerda reorganizando-se em guerrilhas e preparando-se para a luta armada. Essas milícias liberais (de esquerda) seriam o embrião de grupos terroristas como as FARC, que estariam completamente formados nos anos 60 e muito ativos nos anos 70, 80 e 90. Apesar de não ter vivido nenhuma ditadura recente e duradoura como o Brasil, a Colômbia tem um passado muito trágico relacionado a estes mais de 60 anos de guerra civil e terrorismo, período durante o qual grupos terroristas e paramilitares apavoraram a população civil com suas atrocidades. Não podemos dizer que isso é exatamente “parte do passado” para os colombianos, pois é um fenômeno ainda fresco na memória deles e ainda há grupos de extrema-esquerda atuando no país, como o ELN. Ainda há zonas extremamente perigosas, principalmente nas áreas de floresta, mas as capitais departamentais em geral são seguras.

Minha relação com o país
Vim à Colômbia pela primeira vez no segundo semestre de 2013 para conhecer minha até então namorada virtual, que conheci no extinto Livemocha enquanto aprendia espanhol. Eu tinha 22 anos na época e o mais longe que eu tinha viajado até então era Buenos Aires (Argentina) onde passei uma semana. Obviamente meus pais foram radicalmente contra a ideia e se opuseram, principalmente pelo fato de eu estar indo encontrar uma mulher para eles desconhecida. Nesta primeira visita, passei 3 meses em Bogotá com minha namorada, logo tive de retornar ao Brasil para receber meu diploma da faculdade.

Fiquei alguns meses trabalhando no Brasil fora da minha área até que surgisse a oportunidade de voltar à Colômbia, o que não demorou muito: no primeiro semestre de 2014 me inscrevi para um intercâmbio profissional da AIESEC em Medellín e fui para a Colômbia novamente, dessa vez decidido a ficar. Morei e trabalhei praticamente por um ano em Medellín, em um belo edifício chamado Ruta N. Morei em três lugares diferentes durante minha estadia, sempre compartilhando apartamento com outros colegas brasileiros que foram fazer intercâmbio na mesma empresa. Estabeleci-me com três colegas em um conjunto residencial que ficava a 10 minutos da empresa, à pé, e estabelecemos um vínculo muito bacana. Um deles ainda está em Medellín, os outros três retornaram para o Brasil e mantêm contato. Durante meu intercâmbio por lá, levei minha namorada para passar as férias da faculdade e aproveitamos esta época para ir bastante ao Parque Arví e visitar Guatapé. Vi a Feira das Flores e a Iluminação de Natal no Rio Medellín. Viajei à Bogotá para passar as festas de fim de ano com a família da minha namorada e logo voltei para Medellín e continuei trabalhando por mais alguns meses.

Insatisfeito com os rumos da minha carreira em Medellín, no primeiro trimestre de 2015 decidi me mudar para Bogotá estar mais próximo da minha namorada e buscar outra oportunidade. Logo arrumei um emprego numa pequena e acolhedora empresa familiar onde trabalhei por 2 anos e aprendi bastante lá sobre educação virtual e plataformas como Moodle e Chamilo. Nesta mesma época também conheci uma experiente tradutora de espanhol-português-espanhol, com quem estabeleci uma relação profissional e de amizade, dando início à minha carreira como tradutor freelancer. Agarrando uma oportunidade mais promissora, saí da empresa anterior para trabalhar em uma grande multinacional, onde trabalho há praticamente um ano. Desde que me mudei para Bogotá moro com a minha namorada e sua família, e desde então me considero “juntado” apesar de não sermos oficialmente casados. Da nossa união nasceu, em janeiro de 2018, um lindo menino chamado Thiago, que é a maior alegria da minha vida. Minha esposa e meu filho, portanto, são colombianos.

Nestes 4 anos, portanto, minha relação com a Colômbia foi profundamente emocional e eu me enraizei bastante no país. Falo espanhol praticamente como um nativo bogotano, e adotei boa parte dos seus costumes, também. Tenho mulher e filho aqui. Isso pode enviesar um pouco minha análise do país, mas tentarei ser o mais imparcial possível em temas práticos como habitação, transporte, trabalho, etc.


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