A maldade em todos nós

Gostamos de pensar que a maldade é fruto da perversidade porque assim podemos adotar a ideia reconfortante e errada de que ela não habita em nós. Gostamos de pensar que o que  nos separa de genocidas e psicopatas é uma linha intransponível. Mas a maldade não é perversa, ela é frívola, superficial, negligente. Ela é mais fruto da preguiça, da futilidade e do orgulho do que da perversidade. Para os genocidas, a morte de milhões é apenas uma estatística e só requer a assinatura de certa papelada, apenas mais uma tarefa administrativa na sua rotina de construir um mundo melhor. A violência policial ocorre quando o agente de polícia não faz o seu trabalho com uma consciência crítica do seu trabalho, do ponto de vista ético, e se conforma com seguir ordens, protocolos ou agir conforme o calor do momento. O político que desvia milhões não está pensando em causar a fome ou a escassez de remédios, está com a cabeça lá no seu novo carro ou apartamento. Nem os homicidas comuns acham que são perversos: para eles, matar não é uma questão de fazer os outros sofrer, mas uma coisa frívola qualquer como conseguir efetuar um roubo, livrar-se de um incômodo ou mostrar quem é que manda.

A perversidade como principal motivador da maldade é uma exceção que encontramos nos psicopatas, não uma regra geral aplicável a pessoas comuns. Ninguém vira um torturador de cachorrinhos do nada. O que abunda são os cuidadores relapsos de cachorrinhos, que somados podem causar muito mais sofrimento. Os pais que abandonam os filhos são relapsos, negligentes, superficiais e frívolos, não cruéis ou perversos. Mas a sua negligência contribui de maneira não intencional para a formação de pessoas disfuncionais, anti-sociais, problemáticas, viciadas, criminosas. Indiretamente, contribuem para o sofrimento de toda a sociedade. Todos podemos ser maus: por preguiça, por negligência, por futilidade. O bem, a virtude, exigem de nós uma prática intencional e consciente da via negativa.


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